Era uma terça-feira, tarde. A neve dominava todo o cenário. Uma árvore, já sem folhas, tornava a paisagem assustadora, como naqueles filmes de terror. Ao longe eu conseguia distinguir minha casa em meio a um mundo branco. O sol tentava, inutilmente, acoplar-se à pele das pessoas. Simplesmente o frio era dominante.
Eu estava sentado na dura e fria pedra. Ela tinha sido minha companheira por longos e longos anos. Sempre que eu estava triste ou pensativo eu fazia o mesmo trajeto até ela e me sentava. O tempo passou, mas ela continuava lá, sempre a minha espera caso eu precisasse. Era realmente uma fiel companheira.
Àquele dia, natal de 1987, não havia sido tão diferente quanto todos os outros. O sol nascera para o mesmo canteiro de flores, no fundo da casa, e o lago continuava imponente no quintal. A única diferença era que as árvores que hoje cercavam o lado esquerdo do terreno não estariam ali na mesma data há cinco anos atrás.
E falando de datas, há 10 anos atrás, exatamente, eu me sentei nessa mesma pedra em que estou agora pela primeira vez. Eu havia brigado com o meu pai porque não queria que meus tios viessem para o natal. Mas eles acabaram aparecendo. Eu tinha 17 anos. Três anos depois, meu pai morreu de tuberculose. Seu funeral foi na igrejinha do vilarejo, uns 15 minutos de casa.
Morávamos no campo. Em uma bela e grande casa. Havia tantos quartos e banheiros que eu me perdia até me acostumar com ela. Herança do meu avô materno. Minha mãe sempre foi muito caprichosa e detinha tudo o que queria em suas mãos. Era persuasiva e cuidadosa até demais, se querem saber.
Meu pai, arrogante e prepotente, não aceitava a opinião de ninguém. Era o dono da verdade, e seu orgulho era maior do que podia controlar. Gostava de viver bem, mas não sabia viver.
Eu tinha, aliás, tenho um irmão mais velho. Ele sempre cuidou de mim quando precisei. Ele é quatro anos mais velho que eu. Mas parece tão mais adulto. Sempre tão responsável e tão inteligente... Ele sempre foi meu herói. Mas agora ele havia ido embora viver sua vida na cidade grande, como um grande empresário.
Um sino soou bem ao longe. O som parecia se propagar mais facilmente com todo aquele branco encobrindo a visão. Acabara a missa de natal. Quase que instantaneamente um vulto surgiu a minha frente. Eu já o conhecia, é claro. Tantas vezes ele se aproximou de mim quando eu estava ali, sentado naquela pedra...
- Feliz natal, meu irmão.
Olhei para cima, para os olhos dele e não poderia haver nada mais sincero. Meu irmão, que sempre procurara me entender e me ajudar no que fosse...
- Feliz natal – desejei a ele de todo meu coração.
- Me dói ver você nesse estado. Eu queria ver você mais alegre. Ainda mais numa época como essa.
- Se o que você quer é que eu finja que está tudo bem, que eu sorria para todos, está muito enganado.
- Não é isso que eu quero. O que eu quero é ver você bem de novo. Ver o irmão que eu sempre tive: alegre, brincalhão, sorridente... eu sei que ele ainda está aí dentro, em algum lugar.
- Eu cansei. Cansei dessa vida, cansei de tudo.
- Você é novo, você tem toda a sua vida pela frente.
- Não, não tenho! Eu estou morrendo aos poucos... eu olho pras outras pessoas, vejo elas vivendo intensamente enquanto eu fico aqui, me dilacerando.
- Eu não vejo motivos pra você agir assim.
- É claro que não vê. Nem eu vejo. Eu somente os sinto... e dói tanto, tanto...
- Eu imagino como deve ser difícil. E acredite também dói em mim. E eu não quero mais ver você desse jeito. Você é meu irmão, e é a pessoa mais importante pra mim.
- Não, não sou. Você tem sua família, sua esposa, seus filhos, você não tem que se preocupar comigo. Eles são sua família...
- Nunca mais repita isso! Acima de qualquer um você é minha família. Foi você quem me apoiou quando o mundo me virou as costas. Foi você que me amou quando todo o mundo me desprezou. Você, Peter, foi a minha primeira família. E eu nunca vou me esquecer disso.
Eu não tive palavras pra responder. Uma lágrima correu pelo meu rosto e caiu no chão coberto de neve. Ele limpou meu rosto da lágrima, pegou minhas mãos e me pôs de pé. E me abraçou, do jeito que somente um irmão faria. Eu abracei-o forte. Como se aquele fosse o último abraço da minha vida. E eu senti o calor do corpo dele se propagar pelo meu. Aquilo era o que eu precisava.
Mais lágrimas caíram e quando senti algo molhado no meu ombro percebi que ele também estava chorando. Ele parou de me abraçar, mas suas mãos seguravam os meus braços. E sua voz saiu um tanto quanto fraca quando ele disse:
- Eu te amo, Pete.
Daquele dia em diante eu sabia que o meu eu verdadeiro eu tinha voltado. E afinal, a pedra voltara a ser somente uma pedra.
Eu estava sentado na dura e fria pedra. Ela tinha sido minha companheira por longos e longos anos. Sempre que eu estava triste ou pensativo eu fazia o mesmo trajeto até ela e me sentava. O tempo passou, mas ela continuava lá, sempre a minha espera caso eu precisasse. Era realmente uma fiel companheira.
Àquele dia, natal de 1987, não havia sido tão diferente quanto todos os outros. O sol nascera para o mesmo canteiro de flores, no fundo da casa, e o lago continuava imponente no quintal. A única diferença era que as árvores que hoje cercavam o lado esquerdo do terreno não estariam ali na mesma data há cinco anos atrás.
E falando de datas, há 10 anos atrás, exatamente, eu me sentei nessa mesma pedra em que estou agora pela primeira vez. Eu havia brigado com o meu pai porque não queria que meus tios viessem para o natal. Mas eles acabaram aparecendo. Eu tinha 17 anos. Três anos depois, meu pai morreu de tuberculose. Seu funeral foi na igrejinha do vilarejo, uns 15 minutos de casa.
Morávamos no campo. Em uma bela e grande casa. Havia tantos quartos e banheiros que eu me perdia até me acostumar com ela. Herança do meu avô materno. Minha mãe sempre foi muito caprichosa e detinha tudo o que queria em suas mãos. Era persuasiva e cuidadosa até demais, se querem saber.
Meu pai, arrogante e prepotente, não aceitava a opinião de ninguém. Era o dono da verdade, e seu orgulho era maior do que podia controlar. Gostava de viver bem, mas não sabia viver.
Eu tinha, aliás, tenho um irmão mais velho. Ele sempre cuidou de mim quando precisei. Ele é quatro anos mais velho que eu. Mas parece tão mais adulto. Sempre tão responsável e tão inteligente... Ele sempre foi meu herói. Mas agora ele havia ido embora viver sua vida na cidade grande, como um grande empresário.
Um sino soou bem ao longe. O som parecia se propagar mais facilmente com todo aquele branco encobrindo a visão. Acabara a missa de natal. Quase que instantaneamente um vulto surgiu a minha frente. Eu já o conhecia, é claro. Tantas vezes ele se aproximou de mim quando eu estava ali, sentado naquela pedra...
- Feliz natal, meu irmão.
Olhei para cima, para os olhos dele e não poderia haver nada mais sincero. Meu irmão, que sempre procurara me entender e me ajudar no que fosse...
- Feliz natal – desejei a ele de todo meu coração.
- Me dói ver você nesse estado. Eu queria ver você mais alegre. Ainda mais numa época como essa.
- Se o que você quer é que eu finja que está tudo bem, que eu sorria para todos, está muito enganado.
- Não é isso que eu quero. O que eu quero é ver você bem de novo. Ver o irmão que eu sempre tive: alegre, brincalhão, sorridente... eu sei que ele ainda está aí dentro, em algum lugar.
- Eu cansei. Cansei dessa vida, cansei de tudo.
- Você é novo, você tem toda a sua vida pela frente.
- Não, não tenho! Eu estou morrendo aos poucos... eu olho pras outras pessoas, vejo elas vivendo intensamente enquanto eu fico aqui, me dilacerando.
- Eu não vejo motivos pra você agir assim.
- É claro que não vê. Nem eu vejo. Eu somente os sinto... e dói tanto, tanto...
- Eu imagino como deve ser difícil. E acredite também dói em mim. E eu não quero mais ver você desse jeito. Você é meu irmão, e é a pessoa mais importante pra mim.
- Não, não sou. Você tem sua família, sua esposa, seus filhos, você não tem que se preocupar comigo. Eles são sua família...
- Nunca mais repita isso! Acima de qualquer um você é minha família. Foi você quem me apoiou quando o mundo me virou as costas. Foi você que me amou quando todo o mundo me desprezou. Você, Peter, foi a minha primeira família. E eu nunca vou me esquecer disso.
Eu não tive palavras pra responder. Uma lágrima correu pelo meu rosto e caiu no chão coberto de neve. Ele limpou meu rosto da lágrima, pegou minhas mãos e me pôs de pé. E me abraçou, do jeito que somente um irmão faria. Eu abracei-o forte. Como se aquele fosse o último abraço da minha vida. E eu senti o calor do corpo dele se propagar pelo meu. Aquilo era o que eu precisava.
Mais lágrimas caíram e quando senti algo molhado no meu ombro percebi que ele também estava chorando. Ele parou de me abraçar, mas suas mãos seguravam os meus braços. E sua voz saiu um tanto quanto fraca quando ele disse:
- Eu te amo, Pete.
Daquele dia em diante eu sabia que o meu eu verdadeiro eu tinha voltado. E afinal, a pedra voltara a ser somente uma pedra.

Aiin que liindo John ! Me emocionei aqui ! Parabéns
ResponderExcluirObrigado Julia. hahaha
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