21/01/2011

Pra Sempre Estrela - Final

     Aquilo era demais pra mim. Como assim ele talvez voltasse? E o meu coração? E nós? Talvez? Talvez? Não. Eu queria algo concreto. Finalmente a lágrima venceu. Porém, não foi a lágrima; foram as lágrimas. Vi-me chorando como uma criança que perde alguma coisa que gosta, ou quando o pai toma o brinquedo. E chorei, chorei e chorei.  E assim como dito, ele foi.
     Ele ficou um tempão lá. Não deixou, de modo algum, que a distância nos separasse, como prometido. Falávamo-nos todos os dias, com hora marcada, afinal eram sete horas de diferença de fuso.  E o tempo passou, ele continuou lá. Depois de certo tempo ele disse que ia vir passar as férias aqui. Eram as férias de final de série, que lá eram no meio do ano. Seriam dois meses. E eu estava ansiosa para que ele chegasse.  Como se já não bastasse a notícia de ele vir, ele me disse também que queria falar alguma coisa comigo. Alguma coisa importante.
     Foi um sofrimento. Eu ansiosa pra ele chegar e com medo do que ele queria falar. Então ele veio. E ele falou comigo. E foi uma coisa meio que inesperada. Ele me pediu em namoro. Nós já sabíamos que só duraria dois meses. Mas mesmo assim, meu coração pedia por aquilo. Era como se fosse atração magnética. E eu, é claro, aceitei.
     Foram dois meses incríveis. Com direito a piquenique no final da tarde e deitar no telhado para ver as estrelas a noite. Parecia coisa de filme. Foi mais que bom. Chegamos até a gravar nossas iniciais numa árvore. Porém, os dois meses passaram. Nós já sabíamos que isso ia chegar. E finalmente, inacreditavelmente, dolorosamente, esse dia chegou. Conclusão? Não conseguimos terminar. E assim foi.
     Namoramos a distância mesmo. Amávamo-nos cada dia mais intensamente, mais profundamente. É, eu sei que era uma loucura. Mas era a nossa loucura. Nada mais importava. Somente um ao outro. Ficamos um ano e meio com essa loucura. Viajamos juntos, estávamos sempre juntos quando podíamos, afinal nossas famílias se conheciam e eram muito amigas. Contudo, queríamos dar a chance do outro conhecer outras pessoas. Porque sabíamos que no fim das contas nós nos reencontraríamos e veríamos que mesmo o nosso amor sofrendo tanto, perdurou e nunca deixou de existir.  Então, terminamos.
     É triste ver que um dia eu já fui tão feliz e hoje não sou mais. Ver que por mais que eu o ame e por mais que ele me ame não posso me dar para ele. É realmente muito triste.

“E como se eu ainda o tivesse ao meu lado, como se ainda pertencêssemos um ao outro, olho para o céu todas as noites e vejo que as estrelas brilham tanto quanto o nosso amor brilhou e o tanto que ele ainda brilha, porque é no outro que pensamos todas as noites, quando estamos prestes a sonhar.”





Narrativa baseada na história de Ana Biatriz Queiroz
Por John Carvalho

20/01/2011

Pra Sempre Estrela - Parte I

Narrativa baseada na história de Ana Biatriz Queiroz
Por John Carvalho


     Eu tinha 10 anos quando tudo começou. Uma história que eu nunca imaginaria com o final que teve. Uma história que poucos vão acreditar.
     Eu estava lá, como era de costume, no restaurante da minha família. E eu o conheci. Ele olhava pra mim, curiosamente, me buscando, mas eu não ligava muito para isso. Na verdade, eu nem notava o que ele fazia. Afinal, um simples garoto, num simples restaurante. O que poderia haver de mais nisso?
     E durante muito tempo foi assim. Ele ia ao restaurante com sua família. De todos os restaurantes, ele tinha que ir justamente naquele em que eu sempre ficava. E ao chegar lá, seus olhos dançavam por todo espaço a minha procura. E eu? Meramente normal, sem dar a mínima para isso.
     Como a vida é engraçada... Quatro anos depois vimo-nos sentados lado-a-lado numa sala de aula. Quem diria, não é mesmo? Ele ficava lá batendo seus pés fortemente no chão, com as pernas balançando rapidamente quando eu olhava de lado. Eu não o reconheci.
     Na última aula do dia o destino, ou melhor, a professora, nos colocou juntos para fazermos um trabalho em sala. E nós nos falamos pela primeira vez. Foi engraçado, porque ele disse que estava feliz, mas eu não entendi porque não o conhecia – ou pelo menos não me lembrava dele. Então ele me explicou. Disse que passou quatro anos ouvindo pedaços da minha voz. E finalmente lá estava ele, falando comigo. Uma coisa que poderia ser absolutamente normal em qualquer outra história, mas não nessa.
      Então, nos tornamos melhores amigos. Fazíamos tudo juntos desde trabalhos escolares e estudos pra prova até ver filmes, escutar músicas, cantar desafinadamente. E assim foi. Uma bela amizade. E por incrível que pareça nunca tentamos nada além disso. Ele havia se conformado que só teria minha amizade. E eu achando que ele só queria minha amizade.
     O ano passou. E em janeiro ele me ligou dizendo que ia viajar. Eu perguntei pra onde e ele me respondeu que era para Qatar. Na minha mente, eu estava dizendo dane-se pra isso porque nem sabia onde raios ficava esse lugar (nem que ele existia). Meu estômago revirou quando as palavras saíram da minha boca: “Você volta?”. Eu disse isso como se já soubesse que ele nunca mais voltaria. Ele me respondeu: “Talvez.”. Quando me dei por conta, estava lutando com todas as minhas forças para reter a lágrima mais pesada que já quis escapar. Ele disse que ia sentir saudade e que não ia deixar que a distância nos separasse. Eu desliguei o telefone. Não aguentava mais aquilo.




Continua...

16/01/2011

     Eu bem que gostaria de dizer que o céu é o meu limite. Mas acontece que quando eu estou com você, eu sinto que posso fazer tudo. Tudo que eu quiser. Porque estar com você é a melhor coisa do mundo. É me sentir completo. É estar de bem com tudo. É poder respirar profundamente. É me sentir aliviado das tensões. É provar da alegria de viver em paz.
     Eu bem que gostaria de fazer coisas improváveis. Mas acontece que você me doma facilmente. Seu perfume é como um calmante que penetra pelas minhas narinas e acalma toda inquietação que insiste em me perseguir. Então, tudo é perfeito, tudo é maravilhoso e belo.
     Eu bem que gostaria de sair de vez em quando. Mas você me prende, me cativa, me faz te querer cada vez mais. É como estar em casa, mas ao ar livre ao mesmo tempo. É como viajar sem tirar os pés do chão, sem se mover. É como ir à Lua e voltar. É essa viagem louca que eu chamo de amor. E que ele perdure enquanto assim nos couber, enquanto merecermos.
     É fácil dizer que te amo. É a coisa mais natural do mundo. É quase que automático. Porque eu penso em você a todo instante. Eu te quero comigo aqui, do meu lado, para que eu possa acariciar seus cabelos enquanto deitas no meu colo. Para que eu possa cantar pra você. Para que eu possa te mostrar as coisas belas da vida, e te mostrar do que o amor é capaz.



Post dedicado para Iona Antonina Winarska Lipchits, amor da minha vida.



14/01/2011

Viver!

     Por que nós buscamos as respostas? Não podemos simplesmente nos contentar em ter dúvidas? É normal, é simples. A busca pela nossa sanidade, pelo nosso entendimento... futilidades...
     Não culpo, pois, aqueles que tais coisas buscam. É claro, precisamos nos conhecer, mas, ora, que homem afinal, por mais curioso, pesquisador, estudioso que seja chega à resposta de todas as dúvidas?
     Não foi descoberta pelo próprio homem sua incapacidade de utilizar todo seu potencial que, supostamente, a natureza o deu? Ora, se o homem não consegue fazer uso de tudo aquilo que possui, como pode este chegar à resposta de todas as perguntas?
     Infelizmente, as pessoas procuram coisas erradas em lugares errados. Elas não procuram viver além da vida. Não se preocupam com o amanhã. É certo que não devemos pensar só no amanhã e esquecer-nos de viver o hoje. Mas temos que agir hoje pensando nas consequências que virão amanhã.
     O que lhes digo é: não deixe de aproveitar os momentos por causa de dúvidas. Não deixe de viver um futuro digno por agir irresponsavelmente no presente. Crie cada expectativa como deve ser feito. A vida não é tão curta quanto pensamos. Não quando sabemos viver e quando sabemos que ela vai muito além do que imaginamos.

11/01/2011

Hopeful

     Eu sei que um dia eu vou olhar pra esse texto e rir. Ver que tudo o que eu escrevi se concretizou e que eu sou mais feliz do que nunca. Eu sei que vai haver momentos que eu simplesmente vou querer desistir de tudo o que aqui está escrito.
     Eu sei que um dia eu vou OUVIR um “eu te amo” e vou me sentir a pessoa mais amada do mundo. E vou poder, ao ouvir isso, dar o abraço mais sincero que eu daria em toda a minha vida. E isso, acreditem ou não, significa mais do que pode parecer.
     Eu sei que um dia eu terei uma casa para ir quando tiver que passar o Natal sozinho. E sei ainda que serei convidado não por pena, mas porque seria de qualquer maneira. Eu sei que as pessoas a minha volta vão me reconhecer um dia por além daquilo que elas podem ver.
     Eu sei que os meus momentos felizes serão momentos felizes de outras pessoas. Sei também que minhas lágrimas serão não mais por mim. E sei que essas lágrimas representarão muito mais do que elas representam hoje.   
     Eu sei que o sol um dia vai nascer e eu vou olhar pra ele sorrindo da janela do meu quarto. Eu sei que as perdas não serão tão significativas porque eu terei uma base forte. Sei que o caminho que eu tiver traçado terá sido o melhor.
     Eu sei que eu terei amigos de verdade. Além de tudo que eles imaginam e que eu imagino também. Será fantástico. Sei que a minha glória não será realmente minha. E que terei muito mais motivos para me esforçar e dar o melhor de mim a cada dia.
     Eu sei que terei meus filhos e que eles virão para minha cama numa noite de tempestade. Eu sei que eu vou estar lá quando eles tiverem uma festinha na escola, e vou ficar feliz quando vir eles sentirem orgulho de mim no dia da profissão do pai, na escola.
     Eu sei que um dia terei aquele amigo que me liga querendo sair. Ou que simplesmente aparece para o almoço de domingo e acaba com todo o tédio. Eu sei que vou sair da linha algumas vezes e que vou voltar firme e forte.
     Eu sei que um dia tudo isso será parte do meu futuro. Porque é o que eu mais desejo.
É o que eu anseio. É o que eu quero. E é o que vai se tornar verdade um dia. Porque eu vou lutar com todas as minhas forças para que isso aconteça.

10/01/2011

O que diz meu coração



     Prenda-me se puder. Corra atrás de mim. Em teus olhos eu só vejo angústia e dor. Teu sofrimento transborda dessa tua pele imunda para esse mundo imaculado. Teus pés não sabem a direção que seguem. Tuas mãos percorrem friamente as paredes dessa prisão em que vives. A miséria é teu dia-a-dia e a tristeza tua melhor amiga. O carpete da tua casa chama-se humildade, e o teto, o amor. Tua companheira nas noites frias é a solidão e o pesar anda lado-a-lado contigo.
     Nesse mundo sórdido e sem cor que tu vives, eu estendo-te a mão; a mão que um dia você torturou dizendo que jamais precisarias dela. A mão que um dia afagou teus cabelos, que enxugou tuas lágrimas, que te pôs de pé quando caístes. A mão que te pertence. Aliás, não só a mão, mas todo o meu corpo... ele pertence só a ti.
     Não me importa se levará dias, meses, anos, mas eu sei que estarás de volta um dia. De volta para os meus braços.




Happy Birthday Rosen

07/01/2011

Desejo

     O que mais me intriga nas pessoas é a falta de maturidade. Não digo que temos que ser maduros vinte e quatro horas por dia, e muito menos que temos que ser adultos, porque ser maduro é muito diferente de ser adulto. Maturidade não está ligado a idade. Acontece que geralmente a maturidade vem com o passar dos anos. Por isso é muito comum essa ligação.
     Falando em ‘com o passar dos anos’, é bem comum nesse início de ano, as pessoas dizerem (e quando digo dizerem, inclui colocar no msn) ‘Que venha 2011’. Acho ridículo. Não pelo fato da esperança de um ano bom, mas pela falta de maturidade ao lidar com um ano que não pode ser tão bom quanto o esperado.
     Admiro o otimismo das pessoas quanto à perspectiva de um ano melhor. Mas estas – salve algumas exceções – falam mal de Deus e o mundo na primeira dificuldade que têm. E isso é muito, mas MUITO ridículo. A pessoa tem que estar apta para enfrentar um ano desagradável, difícil e muita das vezes pior do que o que passou.
     O que falta é maturidade nas pessoas. Não que não possam realmente desejar um ano melhor, ou como dizem, um próspero ano novo. Mas elas têm que ser maduras o suficiente para lidar com o ano que vier, seja ele bom ou ruim.
     Que as pessoas se tornem mais maduras nesse ano que se inicia. Que as oportunidades possam ser de grande proveito. Que as vitórias possam nos mostrar o quão bom somos, mas que as derrotas possam nos mostrar que às vezes perdemos e que temos que enfrentar tais situações.


Happy Birthday Daniele Ferreira e Sousa

05/01/2011

O Espelho

     Eu estava quieto, sentado na minha cama. Um pio informou que algum pássaro acabara de passar pela janela, que estava aberta. Meus pensamentos pareciam cartas desparelhadas no qual eu tentava, febrilmente, coloca-las par a par.
     Por toda minha vida procurei saber quem eu sou. Entender o porquê deu estar aqui, o que eu tinha que fazer nesse mundo tão grande e ao mesmo tempo tão pequeno. Até que um dia, encontrei uma jovem no parque. Na verdade, ela me chamou atenção. Cantarolava baixinho olhando para as árvores à volta. Era uma cena estranha para uma cidade grande onde todos têm sua vida apressada e não têm tempo para coisas banais como olhar para a natureza no parque.
     Aproximei-me dela aos poucos, não queria assustá-la e nem chamar atenção para minha presença. Mas ela praticamente sentiu que eu estava observando-a. Quando falou, sua voz saiu como uma agradável melodia. Era fina e sonhadora, como se aquele momento fosse único em toda a sua vida.
     - Você vem aqui de vez em quando. – Não era uma pergunta, ela simplesmente estava falando.
     - É...
     - Eu sempre te vejo aqui. Você geralmente senta perto do chafariz ou então embaixo daquele frondoso carvalho perto do lago.
     Aquilo realmente me assustou. Afinal, eu nunca tinha visto ela por perto naquele parque. Sem graça, perguntei:
     - Você vem sempre aqui no parque? Eu nunca te vi por aqui.
     - Ah, eu venho aqui de vez em quando. Eu gosto desse lugar. E parece que você notou isso, pois estava me observando.
     Senti minha pele corar. Seu tom não foi, de modo algum, insolente. Parecia diverti-la. Era estranho ver uma pessoa assim no meio de uma cidade onde todos se preocupavam somente com seu umbigo.
     - Não pude deixar de notar o que você estava fazendo.
     Eu queria fazer a pergunta, mas de um jeito que não chamasse muito atenção.
     - É, é realmente difícil encontrar pessoas que acham tempo para admirar a natureza.
     - E você gosta de fazer isso?
     - Além de gostar, eu preciso fazer isso.
     - Por quê?
     - Porque se eu der lugar às maluquices de hoje em dia, eu piro. É questão de lógica.
     - Você está certa. Mas é que é tão difícil. Nós passamos por tanta coisa...
     - Sim, nós realmente passamos. E é por isso mesmo que temos que cuidar mais de nós, você não acha?
     - Mas... como?
     - O problema das pessoas é que elas procuram as coisas no lugar errado. Você tem todas as respostas que quer. Todas as suas dúvidas podem ser sanadas.
     - Como? Olhando para a natureza?
     - Não, o espelho.

     Isso me intrigou muito. Como um espelho poderia me ajudar? Levantei-me e dei algumas voltas pelo quarto. “Espelho, espelho...” era meu pensamento. Seria um anagrama? Não. Teria que ser algo racional. A resposta de todas as minhas perguntas... mas... como? Onde? O que um espelho teria a ver com isso? Parei defronte a um espelho um pouco sujo que havia no meu quarto. Era excepcionalmente um espelho qualquer. Mirei a minha imagem; eu estava branco. Meus olhos encontraram os da imagem e então a resposta veio súbita e espontaneamente: eu sou a resposta.

03/01/2011

Herói

     O que define ser um herói? Seria poder voar, ou controlar o movimento das coisas sem ao menos encostar as mãos? Seria poder ler pensamentos? Ficar invisível?
     Acredito que as pessoas hoje vivem em um mundo movido a fantasia. Sim, porque eles não querem acreditar que há heróis a sua volta, mesmo que eles não voem ou tenham uma super-força.
     Todos os dias, a cada hora, minuto, talvez nesse exato momento, há pessoas morrendo. E pelo simples fato de conseguir estar vivo, você se torna um herói.
     Os meus heróis são aqueles que conseguem me fazer sorrir quando isso é a última coisa que eu quero, mas é a coisa que eu mais preciso. São aqueles que me fazem companhia quando eu me sinto só, e por incrível que pareça, eles não precisam estar ao meu lado pra isso.
     Herói é aquele que consegue te levar às estrelas sem que seus pés saiam do chão. E não é preciso saber voar para que isso aconteça.
     Eu não esperaria nada mais nada menos do meu herói do que simplesmente cuidado e carinho. É estranho ouvir isso, porque geralmente ligamos um herói a uma pessoa muito forte, grande, com super-poderes. Mas esquecemos que a menor das pessoas pode ser o nosso herói; se ela for capaz de nos amar.

02/01/2011

A Pedra

     Era uma terça-feira, tarde. A neve dominava todo o cenário. Uma árvore, já sem folhas, tornava a paisagem assustadora, como naqueles filmes de terror. Ao longe eu conseguia distinguir minha casa em meio a um mundo branco. O sol tentava, inutilmente, acoplar-se à pele das pessoas. Simplesmente o frio era dominante.
     Eu estava sentado na dura e fria pedra. Ela tinha sido minha companheira por longos e longos anos. Sempre que eu estava triste ou pensativo eu fazia o mesmo trajeto até ela e me sentava. O tempo passou, mas ela continuava lá, sempre a minha espera caso eu precisasse. Era realmente uma fiel companheira.
    Àquele dia, natal de 1987, não havia sido tão diferente quanto todos os outros. O sol nascera para o mesmo canteiro de flores, no fundo da casa, e o lago continuava imponente no quintal. A única diferença era que as árvores que hoje cercavam o lado esquerdo do terreno não estariam ali na mesma data há cinco anos atrás.
     E falando de datas, há 10 anos atrás, exatamente, eu me sentei nessa mesma pedra em que estou agora pela primeira vez. Eu havia brigado com o meu pai porque não queria que meus tios viessem para o natal. Mas eles acabaram aparecendo. Eu tinha 17 anos. Três anos depois, meu pai morreu de tuberculose. Seu funeral foi na igrejinha do vilarejo, uns 15 minutos de casa.
     Morávamos no campo. Em uma bela e grande casa. Havia tantos quartos e banheiros que eu me perdia até me acostumar com ela. Herança do meu avô materno. Minha mãe sempre foi muito caprichosa e detinha tudo o que queria em suas mãos. Era persuasiva e cuidadosa até demais, se querem saber.
     Meu pai, arrogante e prepotente, não aceitava a opinião de ninguém. Era o dono da verdade, e seu orgulho era maior do que podia controlar. Gostava de viver bem, mas não sabia viver.
     Eu tinha, aliás, tenho um irmão mais velho. Ele sempre cuidou de mim quando precisei. Ele é quatro anos mais velho que eu. Mas parece tão mais adulto. Sempre tão responsável e tão inteligente... Ele sempre foi meu herói. Mas agora ele havia ido embora viver sua vida na cidade grande, como um grande empresário.
     Um sino soou bem ao longe. O som parecia se propagar mais facilmente com todo aquele branco encobrindo a visão. Acabara a missa de natal. Quase que instantaneamente um vulto surgiu a minha frente. Eu já o conhecia, é claro. Tantas vezes ele se aproximou de mim quando eu estava ali, sentado naquela pedra...
     - Feliz natal, meu irmão.
     Olhei para cima, para os olhos dele e não poderia haver nada mais sincero. Meu irmão, que sempre procurara me entender e me ajudar no que fosse...
     - Feliz natal – desejei a ele de todo meu coração.
     - Me dói ver você nesse estado. Eu queria ver você mais alegre. Ainda mais numa época como essa.
     - Se o que você quer é que eu finja que está tudo bem, que eu sorria para todos, está muito enganado.
     - Não é isso que eu quero. O que eu quero é ver você bem de novo. Ver o irmão que eu sempre tive: alegre, brincalhão, sorridente... eu sei que ele ainda está aí dentro, em algum lugar.
     - Eu cansei. Cansei dessa vida, cansei de tudo.
     - Você é novo, você tem toda a sua vida pela frente.
     - Não, não tenho! Eu estou morrendo aos poucos... eu olho pras outras pessoas, vejo elas vivendo intensamente enquanto eu fico aqui, me dilacerando.
     - Eu não vejo motivos pra você agir assim.
     - É claro que não vê. Nem eu vejo. Eu somente os sinto... e dói tanto, tanto...
     - Eu imagino como deve ser difícil. E acredite também dói em mim. E eu não quero mais ver você desse jeito. Você é meu irmão, e é a pessoa mais importante pra mim.
     - Não, não sou. Você tem sua família, sua esposa, seus filhos, você não tem que se preocupar comigo. Eles são sua família...
     - Nunca mais repita isso! Acima de qualquer um você é minha família. Foi você quem me apoiou quando o mundo me virou as costas. Foi você que me amou quando todo o mundo me desprezou. Você, Peter, foi a minha primeira família. E eu nunca vou me esquecer disso.
     Eu não tive palavras pra responder. Uma lágrima correu pelo meu rosto e caiu no chão coberto de neve. Ele limpou meu rosto da lágrima, pegou minhas mãos e me pôs de pé. E me abraçou, do jeito que somente um irmão faria. Eu abracei-o forte. Como se aquele fosse o último abraço da minha vida. E eu senti o calor do corpo dele se propagar pelo meu. Aquilo era o que eu precisava.
     Mais lágrimas caíram e quando senti algo molhado no meu ombro percebi que ele também estava chorando. Ele parou de me abraçar, mas suas mãos seguravam os meus braços. E sua voz saiu um tanto quanto fraca quando ele disse:
     - Eu te amo, Pete.
     Daquele dia em diante eu sabia que o meu eu verdadeiro eu tinha voltado. E afinal, a pedra voltara a ser somente uma pedra. 







01/01/2011

A new age starts

     Um novo ano se inicia. E como todos os outros, há a expectativa de um ano melhor e mais proveitoso. O que ninguém espera é que o ano seja pior do que o que passou – se é que isso seja possível.
     Geralmente, as pessoas desejam umas as outras sorte, dinheiro, felicidade, paixões e esquecem de desejar coisas como humildade, esperança, mansidão, sabedoria. Por isso na passagem desse ano que finda para esse que se inicia, desejo a todos tudo o que não lhe desejaram. Desde perdas até um novo par de meias.
     Ultimamente – e digo pensando nos últimos anos – as coisas simplesmente tornaram-se muito superficiais. As pessoas esquecem-se da complexidade das coisas e esquecem principalmente que as coisas podem dar errado. É incrível a quantidade de pessoas que se surpreende quando algo dá errado, sendo que nunca, jamais, em hipótese alguma, estamos livres do erro. Faz parte da natureza humana. É uma condição do homem: viva, mas erre.
     Não se culpe pelos erros que você cometer; é a coisa mais normal do mundo. Apenas lute para que suas consequências não sejam tão graves e alarmantes. Pois o homem que consegue o autocontrole, consegue administrar seus pensamentos, suas emoções e suas atitudes, ele domina tudo quanto pode dominar. E domina a arma mais maravilhosa e mais perigosa que lhe foi dado: ele próprio.

Happy New Year. Happy 2011.


P.S.: Happy Birthday Mommy and Ingrid.