05/01/2011

O Espelho

     Eu estava quieto, sentado na minha cama. Um pio informou que algum pássaro acabara de passar pela janela, que estava aberta. Meus pensamentos pareciam cartas desparelhadas no qual eu tentava, febrilmente, coloca-las par a par.
     Por toda minha vida procurei saber quem eu sou. Entender o porquê deu estar aqui, o que eu tinha que fazer nesse mundo tão grande e ao mesmo tempo tão pequeno. Até que um dia, encontrei uma jovem no parque. Na verdade, ela me chamou atenção. Cantarolava baixinho olhando para as árvores à volta. Era uma cena estranha para uma cidade grande onde todos têm sua vida apressada e não têm tempo para coisas banais como olhar para a natureza no parque.
     Aproximei-me dela aos poucos, não queria assustá-la e nem chamar atenção para minha presença. Mas ela praticamente sentiu que eu estava observando-a. Quando falou, sua voz saiu como uma agradável melodia. Era fina e sonhadora, como se aquele momento fosse único em toda a sua vida.
     - Você vem aqui de vez em quando. – Não era uma pergunta, ela simplesmente estava falando.
     - É...
     - Eu sempre te vejo aqui. Você geralmente senta perto do chafariz ou então embaixo daquele frondoso carvalho perto do lago.
     Aquilo realmente me assustou. Afinal, eu nunca tinha visto ela por perto naquele parque. Sem graça, perguntei:
     - Você vem sempre aqui no parque? Eu nunca te vi por aqui.
     - Ah, eu venho aqui de vez em quando. Eu gosto desse lugar. E parece que você notou isso, pois estava me observando.
     Senti minha pele corar. Seu tom não foi, de modo algum, insolente. Parecia diverti-la. Era estranho ver uma pessoa assim no meio de uma cidade onde todos se preocupavam somente com seu umbigo.
     - Não pude deixar de notar o que você estava fazendo.
     Eu queria fazer a pergunta, mas de um jeito que não chamasse muito atenção.
     - É, é realmente difícil encontrar pessoas que acham tempo para admirar a natureza.
     - E você gosta de fazer isso?
     - Além de gostar, eu preciso fazer isso.
     - Por quê?
     - Porque se eu der lugar às maluquices de hoje em dia, eu piro. É questão de lógica.
     - Você está certa. Mas é que é tão difícil. Nós passamos por tanta coisa...
     - Sim, nós realmente passamos. E é por isso mesmo que temos que cuidar mais de nós, você não acha?
     - Mas... como?
     - O problema das pessoas é que elas procuram as coisas no lugar errado. Você tem todas as respostas que quer. Todas as suas dúvidas podem ser sanadas.
     - Como? Olhando para a natureza?
     - Não, o espelho.

     Isso me intrigou muito. Como um espelho poderia me ajudar? Levantei-me e dei algumas voltas pelo quarto. “Espelho, espelho...” era meu pensamento. Seria um anagrama? Não. Teria que ser algo racional. A resposta de todas as minhas perguntas... mas... como? Onde? O que um espelho teria a ver com isso? Parei defronte a um espelho um pouco sujo que havia no meu quarto. Era excepcionalmente um espelho qualquer. Mirei a minha imagem; eu estava branco. Meus olhos encontraram os da imagem e então a resposta veio súbita e espontaneamente: eu sou a resposta.

2 comentários:

  1. Muuuito bom cm sempre! E não posso deixar de comparar a garota do parque com seu ar sonhador a Luna de HP. Tão simples e verdadeira que nos ensina muito mais que qualquer um. Amei John !

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  2. hahahaha
    esperta como sempre.
    Obrigado pelo comentário.
    ;D

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